A casa perfeita gera filhos perfeitos que gera adultos com defeitos.

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Já perdi 23 anos da minha vida e, não querendo perder nem mais 1 segundo me atiro pro mundo através da janela aberta logo ali na minha frente. Sem pensar na linha de chegada (ou nas chamadas pedras portuguesas da Barata Ribeiro), me concentro para desfrutar o máximo que este deslocamento pode me oferecer. A começar pelo peso, que eu sempre sustentei nos ombros. Este mesmo peso que encurvou a minha coluna e tensionou todos os músculos do meu corpo pelos últimos 276 meses: o peso das responsabilidades, dos compromissos, dos não-desapontamentos, do cumprir as ordens, de respeitar os prazos, de ter notas azuis no boletim, de levantar no ônibus pro velhinho sentar, de fazer a faculdade em tempo recorde, de falar “de nada” depois do “obrigado”, de dar “bom-dia” ao porteiro, de ser o melhor aluno, o melhor ator, o melhor amigo, o melhor filho... o melhor namorado mais bonito, o melhor cidadão mais engajado, o melhor professor mais inteligente, o melhor neto mais maduro, o melhor estagiário mais esforçado ou então o melhor recenseador mais simpático. Ser o melhor, na vida dele que está caindo, significava sofrer. Isso porque o melhor muita vezes beira o perfeito e perfeição não existe. Então, viver era tentar atingir algo inatingível. Agora, ele não tinha tempo de pensar. Se tivesse mais alguns poucos segundos, teria pensado na perfeição da queda. Se aprofundaria nos conceitos da física, da distância entre o corpo em movimento e o chão, a velocidade do ar, a lei da gravidade, os 9.8m\s², o deslocamento retilíneo uniforme, a aceleração centrípeta, o empuxo, a energia cinética ou mecânica ou potencial, a tração nas 4 rodas e a Terceira Lei de Newton. Ele teria estudado e saberia exatamente qual posição deveria estar, agora, para quebrar no máximo as 2 pernas, algumas costelas e seguir vivendo sua vida perfeitamente. Mas não. Agora ele era um outro. Um outro que não pensava nas conseqüências do futuro e que só queria se deliciar com o presente. Foi o gozo maior de liberdade. Pareceu a ele que “se atirar” era “viver”. E pareceu também que quando se atira na tentativa de viver se chega à morte. As pedras portuguesas abrem os braços e oferecem seu colo para meu conforto. Não desprezo nenhuma forma de carinho pois sou carente entretanto, honradas pedras, prefiro plainar a sentir o cheiro da sua frieza. Gostaria, talvez, de ter ouvido esta voz há mais tempo. Gostaria de poder agradecer a esta voz. Gostaria, juro que é a última vez que uso este verbo no futuro do pretérito, de dizer que meus 23 anos valeram a pena só por causa desses 3 segundos de queda. Ou de ápice.

10 comentários:

Bloba disse...

ai, Fred... lindo ver você se expressar tão lindo assim. Curta seu ápice ou queda sempre com tua boa escrita.
bj!

Clara disse...

frederico, frederico. vamos casar?

Caio Riscado disse...

casar não sei.
mas vamos para casa.

Isadora Malta disse...

lindo, belo, difícil

Ivi Derzi disse...

Fred,
A cada dia me orgulho mais de vc!
Além de ser um ótimo ator, amigo, aluno, estagiário vc ainda tem essa sensibilidade incrível pra escrever.
Falando agora do texto, achei-o lindo, intenso, adorei as referências, o jeito profundo como vc descreveu foi tão real que eu senti, do início ao fim. E é assim que reconhecemos um bom texto, uma boa estória :)

Parabéns,
Te amo e Beijos ;*

Felipe Barenco disse...

Caminhei contigo neste chão de pedras portuguesas lendo seu belo post de estreia! Adorei! ;)

Brennand disse...

Queda. Vôo. Um texto que me fez voar. Adorei a escrita e me identifiquei. Eu, por muito, também carreguei esse peso. Recentemente, abri os braços e saltei. Não foi um vôo longo, rápido demais até (moro no 2 andar), mas, foi um vôo decisivo! Fred: te adoro, meu amigo. Agora, tô adorando sua escrita!

Caio Riscado disse...

fama.

Isadora Malta disse...

chókay

Pedro Allonso disse...

poeticamente melancólico, amigo...

 

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