De noite, em frente ao espelho:

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Talvez, a melhor imagem para ilustrar o espaço que ocupa o ser atuante neste projeto seja a do mochileiro. O mochileiro, ser viajante, carrega em sua mochila uma série de referências, ou seja materiais que lhe permitem não perder o foco de sua viagem. Além disso, sabe também o mochileiro que não pode deixar de prestar atenção na paisagem e nem de se afetar, talvez até mudando o seu rumo, pelas ações da natureza. Portanto, é o mochileiro como o ator-jogador ou intérprete. Na sala de ensaio, é preciso que cada ator esteja munido de sua mochila invisível que carrega seus recortes, seus motes, aquilo que o ator julgou ser apropriado para ele mesmo ou então materiais que tenham partido de sua própria motivação. É a mochila do intérprete a sua base processual para entrar e sair de qualquer jogo, podendo fazer uso do que nela carrega, mas também reciclando-a, quando oportuno, de acordo com a paisagem. A paisagem é resultado da soma de provocações que surgem quando algumas mochilas são abertas e seus materiais entram em contato, gerando tensionamentos - positivos ou negativos. Antes disso, é preciso dizer, que a paisagem também se forma de acordo com o espaço, com a arquitetura, com a condição, com o tempo e com o posicionamento dos mochileiros, ou intérpretes, antes mesmo de suas mochilas serem requisitadas. Arrisco dizer que as paisagens sempre estarão formadas se entrarmos para a viagem munidos de observação e abertos para nos afetar. Portanto, é todo novo jogo como uma nova viagem onde recortes dessas mochilas podem e devem ser divididos para com os outros mochileiros. Como todo viajante, o intérprete também é ansioso, quer dividir suas memórias e experiências. Mas é, neste momento, que ele percebe que precisa também aprender a desistir, ou seja, atentar para exposição feita pelo outro para, depois, encontrar o momento e/ou espaço adequado para sua exposição. Tendo isso, a viagem pode seguir tranquila e os jogadores/mochileiros/intérprestes/viajantes podem esperar a beleza e o horror que toda passagem pode produzir. O lugar do intérprete no nosso projeto é esse, explicado aqui da maneira que encontrei para me expressar.

Não estamos buscando a construção de personagens e nem de seres humanos outros. O que nos interessa é trabalhar com o material que nosso corpo, físico e imaterial, pode gerar. Atentando também para as novas construções que formulamos em nosso corpo quando o colocamos em contato e impulso para com o corpo do outro. Buscamos um movimento expositor que inaugura e sufoca determinadas situações sem a necessidade de justificar suas origens e finais. O que nos interessa é o entre, o momento de pulsão, de encontro entre duas ou mais trajetórias. São lapsos de memória, faíscas interpretativas de determinadas condições ou até mesmo loucurinhas desprogramadas. Não estamos aqui para contar a história de uma família e seu lar. Buscamos expor possibilidades desta formação social e deste espaço. São tentativas, fragmentos, "esboços para um possível retrato". Temos um mote e somos capazes de criticá-lo pois exercitamos o olhar estranhado e duvidoso em relação a ele. Uma hora estamos dentro outra já estamos fora. Fechamos e abrimos a porta da rua tantas vezes que esses espaços, no espaço cênico, se condensam, convivem e confluem. São jardins quarto, garagens banheiro, quintais cozinha, churrasqueiras sala, varandas corredor... São paredes invisíveis, atravessadas pelo corpo desgovernado, arrebatado... Como quando nos deparamos com a cara e o corpo no chão, mas levantamos rapidinho - para não encomodar ninguém.

3 tempos para estar de pé.

3 comentários:

Isadora Malta disse...

AHHHHHHHHHH

obrigada.

Aline Vargas disse...

Já levei pra vida, me sinto um mochileiro.... texto incrível.

bernardo disse...

lindo!

 

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