Engole o choro !

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Meu amor, meu amorzinho,

Eu vim aqui pra te dizer que: fui morar na casa do Oscar !

Creio que suas ações tenham provocado reações no meu corpo de uma maneira irreversível e, de uma hora para outra, me vi como um mochileiro. Sem fazer cena e sem ter planejado previamente meu futuro, peguei minhas coisas e parti. Não se preocupe com o como, com o onde e com o quando... deixe as especulações para mais tarde ! Este tipo de coisa nem mesmo eu saberia te responder agora. Talvez você dê falta daquela calça comprida verde que eu sempre usei como se fosse um short. Pois bem, ela será a única lembrança que levo desta casa. Escrevo isto a contragosto, pois minha vontade era não levar nada e sair daqui completamente nu. Mas creio que seja atentado ao pudor sair assim. Mesmo estando em Copacabana. Deixei para você de lembrança aquele meu escapulário de prata benzido em Fátima (está em cima do criado-mudo, entre o abajur lilás da vovó e o abajur lilás do Plínio Marcos). Talvez tendo ele em mãos você consiga achar a real diferença entre um devoto usando um escapulário e um playboyzinho do Arpoador usando uma daquelas correntes grossas de prata. Juro que sempre achei esta sua intolerância religiosa (católica!) um dos nossos grandes problemas. Se eu fui capaz de beber vinho do monte Sinai, aprendi a comer borcht com beiguele de queijo, guefilte fish, pepino agridoce, chalá, mondele e se desejo com a maior sinceridade do mundo um Feliz 5771 para toda sua família, porque você não pode respeitar meu escapulário benzido em Fátima ?

Às vezes eu fico tentando entender como a gente virou resultado de uma conta de subtração. E resultado negativo. Logo nós. Lembro que quando a gente se conheceu a nossa casa ia ter 3 crianças. As crianças lá de casa iam ter cabelos loiros, olhos azuis e teriam bolsa de 100% no Kumon. Você ia fazer tranças embutidas nas 2 crianças lá de casa enquanto eu ia ensinar a outra criança lá de casa a preparar um sanduíche. Iam ter golfinhos nadando na piscina e em todas as manhãs tomaríamos uma garrafa de porra para economizar o dinheiro do pão. Nossa casa ia pesar 2 kg e 300 gramas e, se a gente fosse viajar, nossa casa nos acompanharia. Na hora de botar as crianças lá de casa para dormir, eu leria as incríveis aventuras do kid raf e kid bê (os super super heróis) e você cantarolaria bem baixinho as músicas da Angélica. Ia ter. Naquela época, ‘ia ter’ muita coisa. Os nossos sonhos todos cabiam dentro de um saco plástico. Por vezes eu pensei em dizer que foi você quem estourou o saco plástico mas isso tão pouco aliviaria o meu pesar. Talvez nem você nem eu. Porque não botamos a culpa numa farpa que chegou sem avisar e ploft ? Eu prefiro achar que foi a farpa a achar que foi o destino. Daquelas bem pequenininhas, que você não vê mas sente. Que sente mais quando se está dentro. E que quando está dentro, não sai por livre e espontânea vontade. Só sai com oficial de justiça na porta informando sobre o despejo.

Pode ficar com quase tudo o que a casa possui. Compramos juntos, mas agora é quase tudo seu: fique com o apara, com o desbelota, com o refrigera, com o desfibrila, com o vibra, com o computa, com o seca, com o condiciona, com o aponta, com o anda, com o limpa, com o ventila, com o transferi, com o desentupi e com o liquidifica.

Só te peço que deixe comigo aquilo que foi mais latente no meu peito nestes últimos anos: a dor.

Caco.

13 comentários:

Fred disse...

Para nós.

Brennand disse...

``Eu prefiro achar que foi a farpa a achar que foi o destino.´´ Será que a farpa não foi obra mestre do destino?

bel flaksman disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
bel flaksman disse...

O grande mochileiro.

bernardo disse...

Kid Rafo e Big Be!!
eu sou Big! nao Kid!

Clara disse...

ah. morri com a coisa mais gracinha do post. o comentário do bê. traço de fofura no pós-texto.

Marília disse...

To morrendo aqui.

Michelly Barros disse...

estou em cacos...

mas alguma coisa me cola, me gruda de volta, essa coisa que vem das palavras, do jogo do artista que transforma.

belo texto, meu amigo.

asth disse...

^^

Caio Riscado disse...

vamos decorar?

li com carinho.

Isadora Malta disse...

meu deus.

estou em cacos também.

Era disso que precisávamos agora, uma carta dele, que sumiu assim sem avisar.

caco.

lindo Fred mochileiro.

beijo, Isadora mochileira

Ivi Derzi disse...

Amooor, que lindo!
Adoro esses elementos que vc coloca no texto que os deixa tão real! Muito bom mesmo :)

Beijo

LuCais disse...

Deixa eu contar
Aquela velha história, amor
Deixa eu penar
Aiberdade está na dor.
(Angela RoRo)

 

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