FELIZ ANO NOVO!

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natalzinho

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ia ter uma árvore bem pequenina e não sei se seria um pinheiro. ia ter amigo-oculto e o presente seria uma composição personalizada.

ia ter violão. cajón.

ia ter todas as meninas de trança embutida, uma boneca de presente no meio da casa.
ia ter um monte de choro que ri.

Feliz papai noel.

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E como seria o Natal nesta casa construída.
Feliz para todos.

saudades de nossa sala de ensaio.

E-mail da Padu:

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no meio de um trabalho acadêmico, me lembrei de vocês:

“O espectador (ou melhor, o participante) recebe certas premissas estabelecidas. Graças a elas constrói em sua imaginação o lugar da ação, o seu andamento, as suas associações, constrói a sua própria co-participação etc. Por meio do infantilismo consciente, perfura-se a imaginação e desperta-se o sentido da convencionalidade (como algo de puro, em si – como o senso de humor). Brincamos, isso significa que buscamos a heterogeneidade, o que é inesperado, do avesso, que é o ‘diabo a quatro’. A forma pulsa, refrata-se, tem lugar uma ruptura das convenções correntes, nascem aproximações e semelhanças inesperadas”. - Grotowski, o teatro laboratório.

se pudesse definir vocês, cacos, definiria como brincantes.vocês são sinceros, isso é lindo.

=*

Paula Durso

14 atores, atuando

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http://www.nytimes.com/interactive/2010/12/12/magazine/14actors.html#index


ótimos vídeos.
fragmentos possíveis.

=*

pode ser que eles não compreendam.

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O nosso okidoki!!

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Hoje é tudo verdade.

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Quebrou o meu cabelo comprido
e sobra foliculite
Quebrou esta boca que não se define
e sobra o bater dos dentes
Quebrou e quebraria tudo de novo,
se preciso fosse
para viver mais uma vez com vocês.

Obrigado pela paciência e dedicação de todos

Tenho certeza de que hoje faremos uma linda estreia.

Muito obrigado.

Trajetória.

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Água porque se pode boiar quando não quiser mais e parece dança da gravidade. Eu tenho que te contar que.
Eu tenho uma boneca na beira do riacho. Lá é bom pra encostar. Na mão, no olhão. Ela é pequena, ri esquisito e não sabe que eu mesmo riacho. Eu tenho muito medo de contar não falo não adianta, prefiro dançar.
Toda criança tem o maior amor do mundo, mas alguém não deixa. Abraço ela tão forte, tão forte que vazo pelos dedos. Descanso a boneca e brinco de ser o pai que toda criança deve ter. Ela sai quebrando os pedaços e espaços, me pai não pode vê-la, eu me escondo e ela me procura, acho que chora não vejo só escuto.
OK.OK.OK
Meu pai está me chamando: corrida de patins de gelo; poça d´agua; uma porção de lágrimas, tenho que chegar logo (não quero assim, melhor mesmo é brincar de ser estranho).
As vezes a saudade da boneca é tanta que eu pinto seu amor em mim. Monte de maquiagem num rosto quadrado e corações de espuma branca. Maquiar-se exigia tanta deliberação quanto desarmar uma bomba.
Então Cresço!
O espelho falou: Não bonito, nem tão masculino, algo totalmente diverso e ainda gostava de dançar. Fugi de casa com uma peça de roupa vazia e me tornei orgulhoso.
Procura-se um lugar pra morar na rua Foucault número Picon-Vallin. De onde eu moro da pra ver as janelas vizinhas, são todas iguais. Vontade de monte de palavras em cada um e uma necessidade pulsante de aquário vazio.
Parece memória e não é, depois de crescido ainda brinco de boneca , eu que me revolto ela que xinga, assim nos desmembramos em nascer, crescer e.
Dia dois/ mês infinito/ ano para sempre. Feliz aniversário boneca. Eu gosto tanto dela que não largo, que beijo, cutuco, espremo até cansar e dança que dança embutida e eu particular.
Hora de revisitar as ordens para se tornar adulto. É pai, é gente, é Deus. Estão todos doentes.
Suar e encontrar um par. Bonecas deixam meninos mais tímidos, não me entrego, espero cheio. Redoma que filtra uma cena de amor deplorável e escorre, como gozo, como água.
Eu tenho que te contar que eu estou.
Água faz som por que saliva é acida e a casa cega, qualquer barulho para dançar, não se envolver e se incomodar, dançar é um egoísmo e tanto.
Água não se solidifica sozinha, tiraram-me a boneca e eu preciso aprender a me portar, modos ora. Tanto deslize que mesmo crescido aprendo a re-andar. E ela? Firme? Me segura forte senão eu caio riscado.
Ela não entende que bolo se faz com leite e não água. Ou nata, nata, nata, nata.
“Olha o passarinho”. Morreu.
Água fervente é termômetro dos afetos. Quanto tempo demora para toda ela secar? Esquenta- bolinhas, bolonas, bolotas grandes, bolotas grandes que comem bolinhas pequenas, bolinhas-bolotas que giram e fazem parecer um mar revolto dentro da panela. Depois que estoura só se ouvem os barulhos da água encanada. Ou não.
Gorda.
Digam: AI-DS; BU-CE-TA.
Quando eu canto Que se cuide Quem não for meu irmão
Ab G C F
O meu canto Punhalada Não conhece o perdão
C G C
Quando eu rio Quando rio
F E7
Rio seco Como é seco o sertão
F F#º C F C G
Meu sorriso É uma fenda Escavada no chão Quando eu choro

C F Eb
Quando choro É uma enchente Surpreendendo o verão
Ab G C F
É o inverno De repente Inundando o sertão

Eu e a boneca temos um alerta, dançamos a dança dos nossos pais e todas as suas crises. Espetam-se e não enxergam. Crise-micro-crise.
Despir-se para diluir o espaço. Arranca a pele e me fundo nela e me afundo na crise. Brincamos de casinha. Ela fala e eu rompo. Nadamos pelos corpos feios, gordos, ensebados, rudes que se amontoam na sala numa enchente para lavar a alma.
Eu tenho que te contar que estou grávido e é de boneca.

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Começo sozinha em casa. Sozinha na nossa casa. Por enquanto, sem a coxia, vocês são minha coleção de porta-gelo e seus pegadores em madrepérola e prata. Mas estou só, e é essa a sensação, e é por isso que tenciono os ombros, com a promessa de relaxá-los até a semana que vem.

Entram Gunnar e Doris e eu continuo só. Entram Fred e Lila, só. Com Taianã, Bê e Aline minha coleção de porta-gelo e seus pegadores em madrepérola e prata já está toda comigo no palco. Eu continuo sozinha, mas brinco no balanço com a projeção e com com vocês.
Lila me abraça mas me abandona, deixa sobrar meu abraço, me abraça, me abandona, deixa sobrar meu abraço, me abraça, sai de mim com força, me larga no chão. Eu durmo e ela me acorda machucando meu dedinho do pé com um boi da cara preta que é uma mentira, que cantam com melodia fofinha mas é uma mentira, uma ameaça, não tenha medo de careta senão o boi da cara preta te pega, te pega, te pega, pega boi, pega boi, pega!
Descrevo minha mais dura memória de infância conjugando os verbos no presente, ainda sozinha, mas acompanhada de uma fantasia que não temo mais. Carrego uma trança embutida como quem carrega um espartilho apertado e me escondo atrás da coxia.
Lanço longa trajetória pelo espaço mas sou interrompida por paredes invisíveis. Jogamos com elas em grade, lembrança aberta do processo aberto.
Ladainhas e xiliques não, por favor, vou enfiar minha cabeça aqui nesse balde cor de coral, ouvir tudo embaçado, até sentar-me na mesa e encarar com os pés a pessoa na minha frente.
Hoje a Isadora faz aniversário, derramamos nela todos os cantos de parabéns, congelo numa careta desconfortável aos músculos faciais e é assim que vou, com uma energia propriamente minha, ensinar aos de trás e aos da frente com se faz uma trança embutida.
Blá blá blá sobre a mulher contemporânea numa perspectiva clássica, assisto parada em pose de miss.
As frases que falamos sobre ela são sonhos que plantamos no meu pé de feijão.
Bailinho e amorzinho sabor de morango em inglês, essa casa linda sabor de morango em inglês, a pornografia da procriação e uma boa faxina para sentar-me de novo à mesa, encarando a pessoa na minha frente com tiques de coração no liquidificador.
Todos estão passeando mas o Rafa não quer. Atravesso o palco num surto de felicidade. Quico de alegria. Atravesso de novo na direção contrária e juntos dançamos o bolo de fubá. O momento certo para tirarmos uma foto. Dou as mãos ao príncipe azul, encosto minha cabecinha no ombro do Fred e volto a me esconder atrás da coxia.
Quebra a família inteira, portas batendo e infiltração. Vou enfiar minha cabeça aqui nesse balde cor de coral. De novo. O pior momento para tirarmos uma foto. Príncipe azul me chama de gorda e me abraça cinicamente.
Varanda. Cantamos o coelho que caiu na hora mais importante. Quero dançar mas o palco está cheio de farpas. Pego meus objetos cor de coral e coxia.
Quando volto está tudo inundado. Anuncio o fim e vou embora com a luz.

Cacronograma desta segunda-feira:

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- montagem de luz;
- montagem da estrutura das projeções;
- passadão técnico;
- passadão geralnumbraçosó.
- casinha.

O mapa da mina:

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Trajetória e desenho de CACO

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Energia da criança. É um pátio, um quintal, um ambiente externo. Estamos todos brincando de cabra-cega. No momento em que tiram o capuz do meu rosto, a brincadeira fica séria. Só tenho olhos para ele, que está na minha frente. Ele ri e eu tremo. Começa o jogo sério do “ia ter” e o jogo sério da declaração. Para mim, este material é uma evidente declaração de amor. Começo CACO com uma declaração de amor sincera e termino CACO com a tentativa sincera de uma declaração de amor.
Neste material, tem: olhar fixo, mão direita que não pára, dedo que encontra short, tensão, dificuldade, coração acelerado, falta de ar, palavras que saem com dificuldade, palavras que saem involuntariamente, suspensão.
Este material ocorreu na infância, talvez a primeira (e última) manifestação da homossexualidade na vida do personagem. De fato, me parece que esta experiência foi forte o suficiente para ele querer construir uma CASA, uma família, um lar como todos os outros amplamente divulgados como modelos: com pai na cabeceira da mesa, mãe fritando os ovos e filhos comendo sucrilhos.

- ‘Vamos ficar na amizade ? Não te quero ou não te posso mas te gosto.’
- ‘Ficar perto e não querer é impossível. Melhor ficar longe’
- outra tentativa de, ainda sim, ficar perto\junto
- confirmação da distância
- o que eu gostaria que tivesse acontecido mas não aconteceu ? Se eu tivesse tido espaço, teria corrido pros seus braços e ?

Energia do adulto. São 2 corpos que se encontram, se grudam e dificilmente se desgrudam. É parto ? É sexo ? É encontro. Dali, nasce meu bebê\meu bebezinho. Relação pai e filho que começa a ser vivenciada. É o amor, o carinho, o afeto, a beleza de todas as noites. O sono tranqüilo do meu anjinho. Durante o texto da Bel, vejo a transformação do meu bebê em um jovem adolescente. Incapacidade de lidar com aquilo que o meu bebezinho é agora. O crescimento dos filhos desespera os pais. O carinho vai ficando cada vez menos intenso e a mão vai se desgrudando do cafuné no filho. Meu corpo muda. Passaram-se alguns anos em poucos segundos. Estamos frente a frente: eu e Bê. Esta imagem antecipa o passado que volta à tona. Tenho um duplo que é parte de mim mas que nunca foi meu (mas que fala tudo que eu falo). Meu filho agora quer uma boneca e eu, alguns muitos anos antes, quis um amigo da escola. Me vejo no meu filho e isso me desespera. Se não soube lidar com isso na minha vida, como lidar com isso na vida do meu filho ?

- Vamos fingir que nada aconteceu ? Eu finjo que nunca amei um Homem e você finge que gosta de futebol, OK ?

Conversar com o filho é voltar ao passado. Tentativa sincera de mostrar que está tudo OK. A conversa começa branda mas o tom vai subindo, chegando ao descontrole emocional. O pai disse aquilo tudo para o filho ou para si mesmo ? O filho representa a volta de um passado e o desvelar de uma poeira que estava por baixo do tapete mas que sempre fez a CASA toda espirrar. Enquanto me arrumo pro trabalho, vejo meu filho no banheiro. Ora se maquiando ora se barbeando. Simultaneidade dos opostos. Espelho. Jonathan tem 2 pais ou nunca teve nenhum ? Reflexo. E eu, como fico ? Vou viajar.

Peso. Entro segurando todos aqueles teóricos e eles pesam demais. Não importa se é homem ou mulher, seguro todos com meus braços magros e povôo o espaço com aqueles nomes que são presença físicas. Boto cada um no seu devido lugar. E qual é o devido lugar de cada um deles na minha vida ? Peso do saber, peso do conhecimento, olha o tanto que a gente precisa saber para ser ator\artista, quantas paredes, quantas páginas, quantas referências, qual a relação entre teoria e prática ?, me cansa falar todos eles e ter que lê-los para ser alguém, fazer a prova, tirar 10 e passar de período. E se eu não quiser ler o que todos escreveram mas sim apenas produzir a partir do hoje, será que posso ? Agora, posso.. estou no domínio do jogo. Eu sou o dono da situação. Eu sou Deus e faço todos pararem quando eu quiser. Basta eu dizer a palavra-chave. E eu digo. E repito. E eles são quase marionetes. O actor e sur marionette, escreveu um deles. E eu posso tudo. Eu sou Deus. Ou Picon-Vallin. Ou Bernard Dort. Ou Pavi. Parede !

Preciso contar para minha mãe que sou gay. Os pés falam e o olhar também. Meus pés batem num ritmo cadenciado que não se compara ao ritmo do meu coração neste momento. Angústia, medo, não sei por onde começar, não quero te fazer sofrer, é difícil pra caralho, não foi uma escolha.

Quem canta seus males espanta. Família toda reunida, parentes, celebração. “O importante é que você tá vivo, é bonito, tem talento, é bonzinho, tem uma vida inteira pela frente, é jovem, tem saúde.. pare de pensar em bobagens e vamos pedir pro Senhor derramar sobre você o amor Dele.”

Como se faz uma trança embutida ? Quem tem cabelo liso assim como o meu também consegue, Bel ? E a minha franja, como fica ?

Estamos todos ouvindo a palestrante até que um dos ouvintes se manifesta e endossa o discurso sobre a “nova família”. É o marido sabe-tudo\ personal hapiness at home for wives. Os 10 passos para a felicidade na CASA. Acredita no que diz, fala os maiores absurdos sem intencioná-los.

O personal hapiness at home for wives já encontrou a sua wife. Há alguns muitos anos atrás. Num bailinho. Na verdade, ele foi escolhido por falta de opção. Comercial de margarina, momento grude e mela-cueca.

Enquanto o personal hapiness at home for wives faz o papai-mamãe com a sua wife, o vizinho da frente tem uma performance sexual surpreendente. Admiração, desconforto, incômodo, inveja, despeito.

- Olha, o senhor vizinho da frente que me desculpe mas eu acho o acasalamento das borboletas muito mais bonito que esta cena grotesca que acabei de ver. Olha que lindo, as 3 fêmeas e o macho dançando o amor ! Como se dança ?

Ainda de frente com a minha mãe. Ainda não consegui falar mas a tensão está maior. Será que preciso mesmo dizer que sou gay ? Você já sabe, para que ter que falar ? Meu corpo todo reverbera a angústia, a ansiedade. Está na ponta da língua, na iminência de se dizer. Quando vou falar, “chega, vamos passear !”

O passeio aqui em CASA são os compromissos da convivência doméstica. Estou estendendo as roupas da mesma mulher que vai me pedir uma declaração de amor mais adiante e sou o mesmo pai da CASA cujo filho brinca de boneca. Dia-a-dia de uma vida de casado, a monotonia de um casamento fracassado. Estender calcinhas da sua mulher pode ser considerada uma declaração de amor ?

A importância do feminino na minha vida inventada. A mulher na minha vida. Olha que lindo como elas batem o bolo, tiram a sujeira da coxa, tiram o batom da boca, se olham no espelho e correm para pegar o táxi. Será que eu gosto tanto de mulher que gostaria de ser uma ?

Foto da minha família construída: Primeiro momento, eu e minha mulher, ao fundo. Segundo momento, eu levando a minha filha ao altar. “ (...) Porque você é a mãe dos meus filhos (...)”.

Agora se entra no estado da perda. A minha relação com o balde já comunica (está por um fio ? É a última coisa que falta quebrar ?). Falo da minha vida, do que quebrou e não volta mais. São as perdas que me constituem. Sou feito de perdas. As perdas da minha trajetória que me levam até o presente momento da peça e da vida. Para mim, este material e a terceira mesa são os momentos que mais vejo a anulação de um possível personagem. Óbvio que tem um estado diferente que não é o mesmo da vida cotidiana mas quero realmente olhar nos olhos da minha mãe e falar da minha sexualidade como também falar sobre tudo aquilo que quebrou na minha vida e não volta mais. Como se fica depois do vômito de palavras ? Como se fica depois que se fala de traumas e perdas ?

Outra foto. Mas esta não está no álbum da família. Eu entre Bê e Tei. Seria esta foto a imagem da minha trajetória na peça ? Eu entre o amor amigo e escondido da infância e eu entre a mulher que me deu filhos, família, CASA. É a minha divisão interna exposta. Bê me toca e eu toco a Tei. O passado me toca e eu, a contra-gosto, toco o presente. É a foto da vida inventada. É a foto de dentro. É uma radiografia.

Lugar do desconforto, da incomunicabilidade. Busco diálogo e não consigo. No mesmo ambiente estão Bê e Tei. É muito forte. Saio daquele lugar que não me escuta mas que eu escuto. Procuro alguém que me ouça.

Estou de frente pro espelho ? Mesmo espelho que o Jonathan usa para se barbear e se maquiar ? Só eu me escuto, sou o único interlocutor possível ? O que é o coelho ? A vida inventada ? O amor perdido ? “Estava tudo pronto.” - só dependia de mim. “Pensei em galinha, peixe, pato, gato..” - quais são as opções possíveis para eu me esconder dos Homens ? O coelho é a mulher na minha vida ? O coelho é o disfarce, a mentira, a recusa em se assumir gay ? Ou o coelho é o amor que não tive coragem de lutar ?

A mãe dos meus filhos e minha mulher pede uma declaração de amor. Mas eu não sou capaz de satisfazê-la. Só falo em números. Me prendo à quantidade e não à qualidade. A declaração é meramente enumerativa. É clara a tentativa e a impossibilidade de amar aquela mulher. Há carinho, amizade, consideração.. mas amor\tesão\paixão não há nem nunca houve. E a CASA percebe isso mesmo que se tente esconder. Minhas palavras não convencem nem têm que convencer. É uma tentativa sincera de se gostar e de dizer que se gosta.

Nos beijamos. Nosso último beijo. Talvez por ser o último, seja o primeiro beijo bem dado e de verdade. É o beijo de despedida e de desculpas. Meu personagem acaba. A trajetória dele termina. Com ele, acabou também o amor da infância, o casamento fracassado, o filho que quer boneca e a dificuldade em se assumir gay.

O que meu personagem não teve coragem de dizer a vida toda, eu consigo dizer, enfim, para a minha mãe: “Eu sou gay. Seu filho é gay !”




Por CACO.

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Estamos a menos de uma semana da estréia e a sensação que tenho é boa. Muitos afazeres, agenda lotada, dia corrido. Muitos encontros, compromissos, reuniões, roteiros e mais roteiros. Listas variadas, textos, cores, formatos e pessoas. Pessoas.

Lembro-me agora do início, onde tudo parecia sonho ou algum derivado. Lembro-me das mãos frias, do olhar atento, por vezes, medroso e inquieto. Ainda ontem me debruçava nos livros, buscando articular a melhor maneira de transpor para o lugar da cena aquilo que no papel tanto me mobilizava. Hoje, temos um texto, uma dramaturgia composta por todos aqueles que fizeram e ainda vão fazer parte deste imenso e maravilhoso projeto. Afinal, aonde está a casa e quem é, ou quer ser, dono dela?

Imagens... Nos guiamos pelo incerto, pelo terror, pelo medo e pela vontade. Me guiei pelo não saber, optando por posições abertas, flexíveis. Nos guiamos pela produção diária, por cada sala de ensaio. Me guiei por aquilo que ficava, ou seja, que na repetição via, ou pelo menos buscava ver, algum sentido ou necessidade. E fomos todos guiados pelo espetáculo, por sua poética que foi se definindo lentamente. Rapidinho para não encomodar ninguém.

Um grande colorido em cena. Atores, intérpretes, personas, faíscas de personagens... Quem somos? Como é a nossa neutralidade? Decupar momentos, estímulos, movimentos, olhares e respirações. O neutro se acha dentro, no acúmulos dos estados, em suas transições e variações. Sou boneca, tia, peixe, pai, cego, mãe, irmão, professora de balé, boi, abraço, piscina, filho, filha, água, fogo, primo, prima, tapete, sexo, violão, copinho, cigarro, balde, avô, avó, gaiola, dindo e dinda. Sou aquilo que melhor conscientizo e transmito. Sou minha melhor idéia, minha dramaturgia dentro de outra maior. Sou o suporte para meu próprio foco. Para o espetáculo.

Como se dança? Acredito que ainda nos encontramos longe de responder com precisão esta pergunta. Mas arrisco dizer que estamos mais próximos dela. Mais próximos de uma verdade que começa, agora, a nos invandir por inteiro, por completo. Uma verdade que será plena em contato com o público, no momento da troca, "no momento em que gritarmos a história real de nossos fracassos". Aí sim...

Sinto-me feliz por estar com vocês, por mais uma vez acreditar na capacidade criativa de um coletivo. Sinto-me seguro, firme e passeando. Gosto de me perder nos olhos de vocês, vê-los ganhando o espaço, domando as marcas e crescendo com elas. Gosto deste texto que vai entrando na pele, entre dentes, e que desemboca nessa vontade louca de falar, explanar. Gosto do suor, da curiosidade e também um pouco da impaciência de vocês.

Escrevo pois, neste momento, é o que me parece mais oportuno. Escrevo para tentar compreender mais este ciclo que está apenas começando. É paradoxal esta coisa do início começar no fim. Bom, pelo menos, eu acho. Como acho que outras coisas também são paradoxais no processo de construção de um espetáculo. Mas este assunto podemos deixar para um café.

Em copacabana não venta, o calor está certeiro e o ventilador, mesmo no máximo, produz pouca diferença. Atrás de mim, minha cama. Todas as noites dessa semana, ao deitar, relembro nosso espetáculo. Relembro o que penso sobre ele, o que todos vocês pensam, os elogios e críticas que recebemos. Talvez, seja por isso que eu demore tanto a engatar no sono. Mas não. Acho mesmo que já consolidei este tipo de momento. Um hábito incosciente, quem sabe? Pensarei.

CACO: espero por você como quem espera por um filho, por um novo messias ou coisa parecida. Não que você vá salvar as nossas vidas. Não sou este tipo de pessoa, bem sabes. Mas é que sinto, em algum lugar, que você nos trará alegria, convíveo e uma explosão de abraços. Produzir memória está longe de querer juntar os pedaços e entregar pronto o mosaico. Produzir é pensar mais um vez e, por isso, toda memória é trabalho.

Poema para Caco - contribuição da Jana:

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LIQUIDAÇÃO

A casa foi vendida com todas as lembranças
todos os móveis todos os pesadelos
todos os pecados cometidos ou em via de cometer
a casa foi vendida com seu bater de portas
com seu vento encanado sua vista do mundo
seus imponderáveis
por vinte, vinte contos.


C. D. de Andrade, 1968

Constatação do calor:

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acho que sou só amor.
alegria e certeza do encontro.
=*

O nosso cartaz!

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CACO - possível produção de memória para o espaço da casa

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O nosso teaser: coisa mais linda!

Obrigado Pedro Capello!

=)

A dramaturgia dentro da dramaturgia:

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Verticalizar
Conscientizar
Internalizar
Aprofundar

sobre os olhos da casa

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Tenho medo dos dias
em que já acordo fazendo alguma coisa...
medo de continuar no sonho
(no tal sonho que sempre tenho).
Medo de esquecer da minha rotina...
Medo de esquecer de mim
e ficar só na coisa...
a tal coisa que já acordo fazendo.

Para os pares da casa.

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Antes que se esqueça
É necessário lembrar
Dos dias coletivos
Das gargalhadas no bar
Lembrar o som da estrada à noite.
Lembrar de beber água.
Não esquecer de viver.

Um lugar

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Retiro o que disse e me despeço...
Não quero que me devolva
os nossos livros e discos...
Não quero que se esconda.
Não quero que sofra.
Não quero que se esqueça.

Retiro-me de ti
e só quero
estar em algumas lembranças...
em algumas noites chuvosas.
Só quero estar na sua solidão.

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Agora a porta já não está aberta
e as janelas são presas por grades
grossas.
A ferrugem corroe a grade.
As grades sufocam as janelas
e a porta permanece fechada.

Não posso entrar.

Para Dani:

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Imagens para inspirar a arte do nosso programa!

Can't Smile Without You - Barry Manilow

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Reparem na galera e no coqueiro neon. Beijoz pra quem adora!

Barry Manilow - Can't Smile Without You

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Para o momento depois da palestra. Para bailarmos o amor, para juntarmos com "meu amor, meu amorzinho". Para falarmos de nossos pais, dos casamentos que não deram certo e também dos que deram. Para lembrar que "devemos voltar a nos apaixonar todos os dias de outra maneira"!

Breves Considerações:

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Moradores, espero, mesmo, que possamos ter o roteiro do espetáculo pronto nesta semama. Acho que assim conseguiremos definir e estudar de forma mais precisa e profunda as trajetórias de vocês durante o espetáculo. Mas, mesmo assim, peço que todos busquem fazer este exercício de aperfeiçoar o caminho. Ter noção do todo e em sua parte no todo é mais que fundamental. Depois disso acho que poderemos fazer o exercício sugerido pelo Gunnar como também dar mais atenção a momentos e caracteres isolados.

Vamos ficar atentos ao que a Adriana disse. Vamos olhar para nossos corpos, descobrir onde nasce ou surge esta tensão. Vamos nos perguntar de onde ela vem e que força ela tem para atravancar os ombros, limitando os movimentos. Precisamos estar cada vez mais com o corpo aberto, constantemente atravessado pelo fuxo de informações e afeto. "É preciso estar atento e forte".

Saídas e entradas, troca de materiais, transições, rítmos e silêncios....para onde vamos? É crucial que essa resposta possa ser respondida por todos os jogadores mesmo quando não se está em cena. Pensar na obra, no espetáculo como um todo que transita e se enriquece!

Temos uma dramaturgia e é agora que o trabalho começa!

Atenção moradores: espero vocês na sexta-feira, com o mesmo sorriso de sempre.

Para Dani:

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Auto-Ajuda - Necessidade de ter alguém

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Para Lila e Fred: reparem na forma como ele fala. As pausas, as tentativas de atingir o receptor pela calma. Se apropriem deste modo palestra, centrado e aparentemente neutro de dizer as coisas.

Briga dos Peixes

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eles brigam em círculos.

Para Gunnar e Dóris:

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Atentem para as trocas de direção e os movimentos de ruptura do fluxo. As curvas.

tempo/duração/espaço

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um susto.

Ideias líquidas.

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(O que o vídeo me faz pensar).
Cortes de pensamentos também se apresentam em movimentos e toda a multiplicidade de gestos. O que não foge mesmo é pensar em rasgar, romper e traçar. Tudo de fato parece o dedo que indica a dor, ou só caminho mesmo. E no que isso se condensa em imaginação é uma rede de trajetos que liga e se separa ao mesmo tempo. Toda casa esconde seus encanamentos e tudo vira linha debaixo da terra-cimento que delimita caminhos. Não se sabe- e nem eu até agora- é que tudo o que une não é estrutura, e sim aquilo que se torna essencial. Disso que penso agora é a água. De repente me pareceu elementar e trasnbordou a elemento. Meu elemento nesta casa é a água (do cano). A começar por aquelas águas que batem nas bordas, pias e dão choques em rostos que acabaram de acordar, e bochechar aos escovar os dentes que nos força a dar pequenos sorrisos logo de manhã. Estranhamente infantil. Penso depois em cubos de gelo, estado de rigidez e solidificação dos enquadramentos e ordens, perfeitos cubos que, quase à força de quebrar a fôrma de gelo, escorrem pelo chão deixando rastro quente daquilo que foi gelado. Água é espelho de narciso.
Quando tudo chega ao limite penso naquilo que transborda, por que água não gosta de limite e existe algo que delimita espaço. Água de enxente não escolhe caminhos, sai lambendo portas e corredores.
Lava Lava Lava que água é suja, que água limpa! Da piscina pós-sexo, da máquina de lavar. Quieto, eu acompanho o mesmo sentido do fluxo que o fim é o mesmo e o ralo também.
Água na taça para a mesa 1. Água com gás e bolhas para a mesa 2. Água tônica para a mesa 3.
Água que sai em gotas do cuspe da boca que baba e cospe e que seca a água no canto da boca e que enche a boca d´agua para falar.
E agora submersão. Pensar que a água da bolsa é água de aquário. Tudo ambienta seres, líquidamente suspenso no espaço. Talvez gota e brisa, chuva e tempestade, contração e expansão, peixe e embrião, feminino e masculino.
Para que toda ela seja suor, sempre.

Para o Gunnar:

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Para sugerir imagens.

Para Gunnar:

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A dança da mulher grávida. Grávida da casa, das relações, das paredes e seus afetos. Grávida de fluxos, movimentos em massa e pontos de desequilíbrio. A imagem mais leve que é portadora de um dos maiores pesos: a vida.

Para Fred:

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Eu chorei porque você deixou o coelho cair na hora mais importante.

Performance de Diogo Liberano, para o trabalho: Violenta entre quatro paredes.

Para Taianã e Aline:

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Para Taianã e Aline.

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Acho que envelheci. Algumas coisas eu não topo mais.

quebrou de vez.

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Quebrou o dente do pai da família
Quebrou o porta-retrato do tio morto da família
Quebrou os computadores
Quebrou os quadros
Quebrou os pratos e os copos
Quebrou a escrivaninha
Quebrou o vídeo-cassete
Quebrou a janela
Quebrou o ventilador de teto
Quebrou os celulares
Quebrou a luminária
Quebrou Rua Ministro Viveiros de Castro 62\303
Quebrou o lar feliz e perfeito da família
Quebrou a leveza da vida
Quebrou a vida sem trauma
Quebrou a tranqüilidade
Quebrou as duas camas de solteiro que viram uma de casal da família
Quebrou dormir junto
Quebrou a campainha que era um passarinho
Quebrou o bar e os licores e as taças de cristal
Quebrou a luz lilás do hall
Quebrou a banheira
Quebrou o bidê
Quebrou o aquecedor que só acende com fósforo
Quebrou a lousa branca
Quebrou a Vanessinha, o Valtinho e a Valéria
Quebrou as paredes rabiscadas
Quebrou o campeonato de volley dentro de casa
Quebrou o 2541-8335
Quebrou o recreio
Quebrou boletim
Quebrou notas azuis e vermelhas
Quebrou assinatura do pai e\ou responsável
Quebrou a reunião de pais que só ia a mãe da família
Quebrou aparelho nos dentes
Quebrou palmilha
Quebrou tênis de cano alto
Quebrou tamagochi
Quebrou o teletrim
Quebrou asinha de galinha para sair voando
Quebrou só o recheio do biscoito recheado
Quebrou verruga no cotovelo direito da mãe da família
Quebrou pônei
Quebrou bingos
Quebrou o namorado da mãe da família
Quebrou avó da família
Quebrou Margô
Quebrou Jorginho.

Aula de Ballet - Para Dóris e Lila:

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- as crianças lá de casa estão atrás. uma de calça - sem uniforme - e a outra que não consegue manter os pés e as pernas parados. como é corrigir o que ainda não é?

Aula de Ballet - Para Lila e Dóris:

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Quebrou...

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Quebrou Niterói. Quebrou dormir no mesmo quarto que a irmã. Quebrou ser presidente de turma. Quebrou competição, qualquer tipo de esporte ou jogatina sem fins lucrativos. Quebrou fumar escondido no recreio. Quebrou o lanche de domingo e as viagens com o pai. Quebrou as compras com a mãe e o elevado da sala de jantar da família. Quebrou a tampa da privada e, me lembro agora, que essa foi uma de nossas maiores discussões. Quebrou o sexo, o tesão por meninas e a rede da casa da Sol. Quebrou o corredor, o 901, o 1304 e o bloco B. Quebrou o play, quebrei eu e você. Quebrou se sentir pequeno, estranho no ninho, sem amigos e paradão. Quebrou o Largo do Machado, o parque, a cadela e as lembranças dele, o velho. Quebrou o desejo pela morte. Quebrou a relação, o vaso de acrílico, os tabuleiros de cocada no dia do índio. Quebrou o cobrir, o velcro preto e a camisa ilustrada com um sol - a obrigação de estar sempre sorrindo. Quebrou o elevador uma série de vezes. Quebrou a luz, a revista a fama e a zorra. Quebrou uma série de coisas pequenas que não podem, e nem devem, fazer parte dessa lista. Quebrou o cabelo, a barba e o bigode. Quebrou viajar com os pais, o banco de trás e o cheiro forte. Quebrou e continua quebrando.

Quebrou.

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Quebrou primeiro o guarda-roupa e imediatamente os cabides. Quebrou o botão da camisa e da calça jeans larga. Quebrou o espaço que era largo demais para se despir. Quebrou gavetas e fechaduras das meias brancas sem cor e forma. Quebrou qualquer tipo de forma. Quebrou a fôrma da família. Quebrou o silêncio. Quebrou a escultura velha posta sobre o rosto em moldes barrocos. Quebrou o aparelho de fita. Quebrou a Disney. Quebrou as palavras e o olhar mais distante da porta para sala. Quebrou o silver tape. Quebrou o cordão de sementes. Quebrou o único sofá e o dividiu em 3 televisões. Quebrou o mesmo quarto de dormir e suas intimidades. Quebrou o perfume só dela. Quebrou o perfume dele. Quebrou a mesa de bar e o fogão a te sorrir. Quebrou o lugar preferido na mesa. Quebrou qualquer lição de educação. Quebrou o desrespeito e o seu cú, porra. Quebrou mini-portas retratos para foto 3x4. Quebrou a baiana de barro. Quebrou logo aquele prato da viagem para Natal. Quebrou o som. Quebrou cantar sem querer. Quebrou as dobraduras de cartas em forma de casa e coração. Quebrou o caderno de perguntas. Quebrou ah, é sexta-feira. Re-quebra-Re-quebra-Re-quebra sim pode falar pode rir de mim. Quebrou tênis, saxfone, vôlei, escoteiro, natação, academia, kumon de matemática, teatro, desenho mangá, inglês, Kumon de português, espanhol. Quebrou o despertador de dedos nos pés direito. Quebrou o copo marrom. Quebrou o banco do carona. Quebrou a farofa de miúdos.

peito pra frente,coluna reta, vai, vem...

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quebrou

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Quebrou o colar que ficava bem com todas as roupas e seria aquele que nunca iria quebrar devido ao especial cuidado e atenção. Quebrou o brinco e também quebrou batom. Quebrou o barco de brinquedo da forma mais violenta que já se viu algo sendo quebrado. Antes quebrou paciência, depois proximidade. Quebrou a perna e abriu a cabeça. Junto quebrou a beleza de uma criança que dançava balé no centro da sala e a felicidade de encontrar uma foto que a mãe tanto procurava. Quebrou a distância a vergonha e o pudor. Quebrou o chuveiro, quase teve um curto circuito e naquele dia, naquela tarde nublada, pensamos em tomar banho de balde com a água do tanque, depois pensamos em aquecer a água do tanque no fogão e aí sim tomar banho de balde com a água do tanque aquecida no fogão. Quebrou o ar condicionado a mesma vontade de sempre de voltar pra casa. Essa quebrou muito antes. Quebrou copo no café da manhã, copo no almoço e copo no jantar. Quebrou a mesa de jantar. Quebrou o computador e a família toda. Quebrou algo que não tem nome e se perdeu. Parede. Quebrou parede e canos e rodapé e teto. O chão quebrou muito pouco. Quebrou o sofá da sala, o puxador, a maçaneta, a geladeira, o microondas, a torradeira, tudo de uma vez. Quebrou uma espécie de paz. Só uma, um dia. Quebrou qualquer respeito. Quebrou tolerância e depois intolerância. Quebrou a dieta e pior de tudo: quebrou o combinado. Quebrou o ziper da bolsa. Quebrou a cama. Quebrou o relógio, o despertador. Quebrou, só quebrou.

Pêra, uva, maçã ou salada mista ?

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texto.

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peço, a todos que já possuam textos inseridos em estruturas que, por favor, tenham atenção a eles. decorar é fundamental, mas compreender o que se diz é mais ainda. vamos com calma.

inté sexta.

MI VIDA DESPUES (My life after)

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Trabalho da diretora argentina Lola Arias.

Referências sobre nossos pais, sobre diversas possibilidades de pensar o audiovisual, da ordem dos acontecimentos simultâneos, da plasticidade e manipulação dos objetos. Delícia.

Rosas | ROSAS DANST ROSAS

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A maravilha enviada por Luar. A exatidão, a respiração e a fragmentação dos tempos e dos movimentos é belíssima. Respirem!

Caquito.

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Moradores, depois de alguns pontos levantados hoje gostaria que amanhã pudéssemos conversar um pouco sobre o que já esta "levantado". Vamos pensar esses materiais, seus diálogos e, acima de tudo, tentar traçar uma continuidade para o que já temos. Acho, de fato, que continuarmos no esquema de juntar lé com cré primeiro, para depois aprofundarmos todas as nossas questões é a melhor opção que temos. Vamos juntos contra este vazio que nos afronta, vamos ser guerreiros, encarar o desafio como mochileiros. Peço que revejam suas anotações, pensem, sobretudo, no espetáculo, em sua pulsação e poética maior. Vamos nessa!

eu preciso falar da beleza dele ou eu ia postar outra coisa mas...

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Decidi dizer para você um, que fico feliz quando percebo que seu lugar é junto do meu. Que agente brinca de marido e mulher, e dá certo. Que agente brinca de irmãos siameses, e dá certo. Agente dá certo e pronto. Simples.
Decidi dizer para você outro, que na nossa casa eu não sei direito onde você mora porque sempre que eu chego você acabou de sair. Que a nossa casa está sempre em silencio, a não ser quando eu choro ou quando você ri. Durmo agarrada no seu pé e você no meu, como aquelas irmãs que sempre riem e choram juntas. Firmes.
Decidi dizer para você, que é meu presente misterioso, enrolado num laço de fita que não cessa de desfazer, que tua melancolia é a minha. Não porque tomo-a para mim, mas porque também está aqui. inteiro.
E pra você que me rodeia, e que me falta mais, dizer que sinto prazer só de olhar. Te ver. Nosso tempo é outro, é nosso. Sempre.

Para depois do sexo: o nosso ritual de lavagem.

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huaf
huaf
huaf
huaf

salto para a direita

huaf huaf

salto para a esquerda

huaf huaf

troteio

vou de reggae cinco vezes

quatro nucas

entro com a mão direita, cabeça

sou cavalheiro

respiro, aceito o duelo

três elefantes:

onde você esconde a verdade sobre a sua piscina

É como me sinto:

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da arte de admirar bagagens e tentar diariamente extrair o melhor delas.

o lugar que você senta na mesa diz muito sobre você.

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Desde a nossa chegada eu sinto uma vontade enorme de tentar dizer algo que só era capaz de sentir. E verbalizar as entrelinhas é uma tarefa muito difícil para um mero escritor de horas vagas. Talvez seja capaz de verbalizar as entrelinhas de personagens, pois este é meu ofício de ator, mas aqui quem escreve não é um personagem mas sim uma pessoa que sente, acha muita coisa, nem sempre diz o que acha e cria muitas hipóteses. Na verdade, antes de verbalizar e criar as hipóteses, eu precisava saber o que era aquilo que eu sentia. Acho que já ficou clara nos meus outros textos a dificuldade que tenho em mensurar sentimentos. Sou um amante das palavras mas elas inevitavelmente têm um caráter reducionista que desaprovo. Na tentativa de entender os 2 dias juntos e de tentar organizar este bando de ‘achismos’ que povoam minha cabeça, eu busquei alguns ouvidos amigos. Busquei alguns outros moradores. Precisava falar. Precisava ouvir. E agora, depois de fascinado e impactado pelas fotos, acho que preciso escrever.

Eu fui um dos mais entusiasmados em viajar. Quando vi que nosso desejo de morar numa casinha por alguns dias estava indo pelo ralo, eu esperneei quase como um filho único e mimado. Mas, tirando o fato de eu realmente ser filho único e mimado, eu acredito que minha postura nada mais era que certeza da importância desta experiência para o nosso bem maior, o nosso CACO. Pois bem, demos nosso jeito. Cada um se esforçou o quanto pôde: uns desmarcaram ensaios, outros passaram o dia no telefone para resolver transporte, outros uns se disponibilizaram em dar o dobro da quantia combinada, uma se ocupou com a difícil tarefa de fazer a lista de compras e bolou o cardápio que tinha que agradar a carnívoros e vegetarianos, outros poucos foram às compras na correria da véspera, umas todas foram se depilar, 3 deixaram de ler e estudar para a Ângela Materno e todos saímos num sábado de manhãzinha das nossas casas deixando para trás pessoas e relações (já conhecidas) além dos confortos (que fazem do nosso lar a nossa casa). Talvez estivéssemos indo em busca justamente de novas pessoas, novas relações, novos encontros e nos propondo a não ficarmos só no conforto do já conhecido e do fácil. Talvez aqui caiba um aparte: esta última frase poderia servir também de estímulo neste nosso processo; podíamos fazer um pacto de todo ensaio ser aquele sábado de manhã em que a gente se predispôs a deixar o confortável de lado e estar aberto ao novo e ao outro.

Eu fui muito feliz lá. Mas sinto que não estava pleno. E eu descobri que não estava pleno porque sabia que aquilo lá era processo e pesquisa. Estávamos numa sala de ensaio sim. Porém, numa sala muito mais aconchegante. Eu fui sabendo que era pesquisa e talvez tenha me apropriado demais do “ia ter alguém que observa”. Eu assumi este lugar sem querer. Não fui com este objetivo, não foi intencional e nem acho que todos deveriam ter tido a mesma atitude. Eu sinto que estava com vocês e tive momentos mágicos mas não conseguia desvincular aquelas horas como horas únicas e preciosas que poderiam me ajudar a entender e a fazer melhor nossa peça. A entender melhor cada um de vocês. Para mim aquilo foi ensaio sem calça de moletom preta e camisa branca. Foi ensaio sem pedir autorização de sala e sem pegar as chaves da 604 e, talvez por isso, eu tenha dificuldade em achar que esta viagem tenha sido carnaval. Foi ótimo. Foi divertido. Mas foi trabalho. E também foi doloroso.

Foi muito doloroso ver os movimentos da casa e os meus movimentos que me fazem ficar tão próximo de uns e tão distante de outros. É muito doloroso querer estar junto e conseguir, no máximo, estar perto. É mais doloroso ainda quando você gosta de todo mundo mas as suas escolhas por uns implicam em renúncias por outros. As afinidades gritaram. Se você optou por não pertencer a um cômodo da casa, isto já significou não estar com outros moradores que têm este mesmo cômodo como primeira opção. E aqui ‘optar’ não é um movimento consciente. Se você pega sol na piscina, você não descasca batatas na cozinha. É incrível com os cômodos revelam, afastam ou aproximam. Os lugares de cada um na casa e na vida ficaram bem mais evidentes. A função de cada um, o lugar que cada um ocupa ficou muito claro. E tudo isso é natural. Não existe esforço. Nada foi conquistado no grito. O lugar que cada um ocupa neste latifúndio está no âmbito do humano. ‘Eu, naturalmente sou assim e, naturalmente, ocupo este lugar. E você, naturalmente, cede. Ou nem tão naturalmente assim..’. Estes movimentos de circulação me impressionaram muito. Nada na casa é impune. Nenhum movimento é à toa. Com certeza o lugar que você senta na mesa diz muito sobre você e, se você olhar para a direita e para a esquerda, você talvez entenda porque você sentou ali e não no sofá debaixo do ventiladorzinho. Acho que devíamos decupar mais esta matemática de ações, este entrar e sair... a hora que você saiu da sala para tomar banho diz sobre você e sobre os outros. O olhar vazio que vem logo depois da gargalhada mais sonora, o sorriso escancarado que dá lugar ao sorrisinho tímido depois do flash, o jeito de cada um, cada um que fuma, cada um que bebe, o corpo de cada um, o copo de cada um. Tudo diz. Até a brincadeira, sei que nenhuma foi leviana. Brincando a gente se revela. Não tem aquela frase que diz que toda brincadeira tem um fundo de verdade ? Então, ouvimos e dissemos várias verdades brincando. Algumas foram surpresas e outras, já esperadas. As palavras estão no ar mas nem sempre a gente as ouve. É preciso estar atento.

Eu não queria de forma alguma que estas minhas impressões fossem tidas como verdade absoluta, pois nem para mim são. Também queria deixar claro que não me acho exemplo quando digo que para mim aquilo foi pesquisa e trabalho. Somos diferentes e eu vejo beleza na forma como cada um se relacionou com a vivência. Talvez realmente soe bem mais razoável numa ‘vivência’, viver. E não apenas observar. E todas as minhas hipóteses são apenas hipóteses pois assim como não gosto de mensurar sentimentos também não gosto do movimento que faz a hipótese virar verdade. Deixa eu ficar com as minhas hipóteses. Deixa eu ficar mais um pouco com vocês.

Diariamente

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para trabalhar o amor diário.

Nosso espetáculo, por um bem maior:

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Ele aponta questões, desenvolve algumas e outras deixa em aberto. Ele é, em sua maioridade e exterioridade, movimento. Apresenta o passar de corpos de um lado para o outro. Cria e apaga trajetórias no espaço. São variações de uma mesma imagem, atravessadas. Você sente quando a cena rasga? Argh! Ela corta como uma serra elétrica a cem por cento. Alguma coisa nos diz que algo se instaura... perdura, mas depois precisamos correr, subir, descer, cavar outros e novos espaços. Ele é assumidamente plástico e, por isso, precisa ser exato, compreendido e estudado: pedacinho por caquinho ou vice e versa. Mais do que compreender o seu tempo, o individual, é preciso que se compreenda o tempo do caco, da junção dele com outro e mais outro e neste mesmo movimento fazer o esforço para compreender o tempo do espetáculo. Ele é ousado, atrevido, fala baixo e grita. Ele debocha, dobra, ri e dá sorrisinho de canto de boca. Ele pode parecer simples, bobo, mas não é. É sim singelo, "tímido", rapidinho para não atrapalhar ninguém e, por isso, exuberante em seu detalhe. Ele é água que passa, banho de água fria no calor ou quentinha no inverno. Ele é casa, é todo dia e, talvez também por isso, tão difícil de se atingir. Ele dança, se locomove, treme e toma choque. São imagens. Ele é a variação de rítmos encontrados ao folhear um álbum de fotografias: para algumas fotos - atenção, olho macro - para outras - olhos de canto, passo o olho - para ainda outras - olho micro, no alcance do nariz de uma saudade. No sofá, com este álbum na mão, vislumbra-se a decupagem da partitura exposta. Ou seja: para frente, para trás, mais perto, mais longe, de lado, de costas, deixa eu ver melhor ou essa foto todo mundo já conhece? Casa é o lugar de onde partimos ou inventamos um imaginário de casa que gostaríamos que fosse o nosso lugar de origem? Por essas e por outras ele também é culpa, culpado, dor, abraço partido e choro escondido. Por essas e por outras é nervoso, borboletas na barriga, o primeiro amor, a nova paixão, toda casa é coração. É como o passar de uma onda que recolhe e renova. Ele é o que ainda está por vir e o que hoje batizamos como. Mas ele tem um nome e lugar. Pelo menos foi o que tentei aqui esboçar para mim, para vocês e para a gente.

carinho.

They tried to make me go to rehab but I said 'no, no, no'

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Vim aqui rapidinho só para dizer que falto nesta sexta-feira, 15.

aqui rapidinho só para dizer que estou triste em não ter vocês.

rapidinho só para dizer que gostaria que sentissem falta do caco carente.

só para dizer que acho que é vício.

para dizer que não quero saber de rehab.

dizer que Amy estava certíssima na letra daquela música.

que este vício é bom.



Bom, bom ensaio ! ;)

Aninda sobre a casinha de madeira:

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- o espaço da cozinha que acolhe, apronta e abre. dá liga.
- o espaço da sala que joga, propõe, comunica e coletivisa.
- o espaço do quarto que relaxa, guarda, esconde e sonha.
- o espaço do banheiro que abriga, cheira e evidencia.
- o espaço da grama que celebra, rola, deita e bate palma.
- o espaço da piscina que desafia, transforma e colore.
- o espaço da mesinha de chá que canta, toca e cria.
- o espaço das chaves que revelam, desvendam e facilitam.
- o espaço da única panela que une e organiza.
- o espaço da mesa que trabalha, corta e separa.
- o espaço da pia que implora, dá brilho.
- o espaço da porteira que recebe.
- o espaço do desnível que desorienta.

muitos espaços para dentro de um só CACO.

agora já temos memórias espaciais coletivas e podemos jogar com elas.
memória é trabalho.

pós-flashes

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aqui. aguardem um tiquinho, to dando um trato nas fotos que gostei mais e quero postar tudo de uma vez.

tem muita coisa linda.
também, depois de dois dias lindos, que mais a gente poderia querer?

um beijo estalado que eu queria dar em cada um agora.
boa noite, crianças lindas de hoje.


eu sei que isso não é algo muito comum, mas eu realmente preciso falar da beleza do meu pai.

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Na CASA da minha mãe tem uma fotografia que sempre me faz rir.
Ao meu lado, como que do meu tamanho, meu pai. No alto, de pé, você.
No centro da foto, uma menina distraída diante de um mundo inteiro. Cair em CACOs, engolir sapos, quebrar cabeças, prender o ventre, chorar pitangas, queimar os dedos. Existe um infinito entre nós duas e ainda assim, ou talvez por ser assim, somos FAMILIA. E se me diz que eu vou ficar bem, se me dá todo o seu tempo sussurrando orações para que eu não perceba que o sol não esteve lá a noite inteira e se me levantar tão alto que eu não possa ver você chorar quando a porta se fechar atrás de mim. Eu fico pensando se você seria capaz de ir... Na tal fotografia da CASA da minha mãe eu me desafiava nas brincadeiras mais longas e ganhava na frente do espelho, derrotada. Vestindo escondido o seu anel de casamento, trancada do lado de fora, eu ria gritando das nossas diferenças e da sua culpa por meu mundo CACOfônico. Era divertido berrar, numa espécie de apnéia, o que pra mim era o maior dos desafio. VOCÊ SERIA CAPAZ DE IR? Quando volto, no silencio da memória presente, eu consigo ouvir o som do seu choro atrás da porta e sentir o sussurro dos teus desejos notívagos no meu cabelo. Faz muito tempo que eu não esqueço a chave de casa.

Da casinha de madeira:

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Obrigado.

vc nome, eu cor.

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da minha paixão.

do sentimento maternal. de como classificar as coisas. de como se aprende a dar nome a dor. do grito poético de cada um. da surpresinha e das conquistas do jardim de infância.

sou pequenininho do tamanho de um botão, levo papai no bolso, mamãe no coração, uma saudade que é da cor da preguiça. preta. da alegria laranja e da tristeza vermelhinha.

Tudo caco (que lembra "tudo picotadinho")

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Coisa de mosaico em cacos e seus fragmentos. É teia que liga tudo: o seu no meu, a cola aqui acolá. Casa de papel frouxo, casa de cimento pouco. Qual o controle dos fatos e papos? São todos da família. Sinta-se em casa e não se esqueça de levar um pedaço de bolo pra sua mamãe, ah leva sim! Circulação. De ar. Respirar. Respirar. Qual canto eu canto uma casa muito engraçada? ou a família unida que sempre pede perdão por qualquer razão? Chora amorzinho, benzinho, bebezinho. É feriado da casa nos tempos do nomadismo, ninguém pertence a estrutura sem ser ela própria extensão do seus cômodos e descômodos.
Você que casa e eu que viajo. Você que feliz, eu que caso.

Resolvi publicar esse rascunho inacabado que achei abandonado aqui. Em 09/10/2011 - Um ano depois.

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as crianças estão dormindo

aproveito pra ouvir músicas que só eu gosto

aproveito pra botar pendências em dia

aproveito pra repensar palavras ditas em um desabafo que era só meu e poderia ter permanecido abafado só em mim.

tenho que resolver coisas antes do feriado, já vou levar as crianças pra viajar.

tenho que cuidar do meu corpo casa abandonado

tenho que

para a casa que se despi

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MULHERES E CRIANÇAS PRIMEIRO

Prá Começar

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Pra começar
Quem vai colar
Os tais caquinhos
Do velho mundo

Pátrias, Famílias, Religiões
E preconceitos
Quebrou não tem mais jeito

Agora descubra de verdade
O que você ama...
Que tudo pode ser seu

Se tudo caiu
Que tudo caia
Pois tudo raia
E o mundo pode ser seu

Pra terminar.
Quem vai colar
Os tais caquinhos
Do velho mundo...

(Marina Lima)

ando pensando muito nessa música.
em nosso CACO.
caquinhos e suas colagens.

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amor, tem colo aqui.
pra vc e pra cada um de nós. cada pedaço de cada momento de cada dia em que construímos cada espacinho dessa casa.
escuto essas palavras, seu cinzeiro cheio, as desculpas que descem as escadas quando o elevador está quebrado.
encosto a nuca pesada no mais novo habitante de nós sem nem pedir licença. sem perguntar se posso entrar. quando os desconfortos surgem ao mesmo tempo, a gente pelo menos tem um amigo de borracha para compartilhar. dividir mesmo, passar de mão em mão. conforto.
das caras fechadas, das falas engasgadas, atropeladas, atropelantes. de como tudo isso já vira grito no corpo. sorriso de olho.
e muito mais das caminhadas no mesmo sentido. nem que a gente tenha que virar aparador.

tá firme?

Tudo Sobre Minha Mãe.

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Jessé, Lovie Elizabeth, Maurício, Roberto, Jessica, Ana eugenia.
Agrônomo, bailarina, fracassado, economista, arquiteta, psicóloga.
Engraçado, cool, doce, bem sucedido, criativa, gorda.
Casado, desquitada, casado, casado, casada, casada.
Um casal, 9 sobrinhos, 2 meninos, 2 meninos, um casal, 1 menina.
Feliz, à procura, não conhece, aparenta, perdeu de vista, feliz.

Sozinha na cozinha porque ainda não existia leite condensado em latinhas individuais. Lugar de chocolate é na cama. “Você é mesmo um mastodonte! Você nunca vai arranjar um marido se continuar desse jeito!” Na escada de entrada da casa olhos fixos na porta pra ver se alguém está vindo. Como se fechasse os olhos pensa que a escuridão deve ser boa nessas horas, ouve os ruídos que comprovam que alguém está distraído. Que alguém não está sozinho. “Você nem deve poder ter filho... se conseguir engravidar ou você morre ou morre a criança.” Toda noite numa imagem turva é possível ver o futuro: Ia ter cabelos cacheados, ia saber não se preocupar, ia ser Gabriela, ia não ter medo de pedir ou de perder ou de chorar ou de vencer, ia ter um bumbunzinho macio, ia ter café no leite, ia andar descalça, ia ter um escuro particular, ia ter amigos e sede, ia ter uma calma e duas certezas, ia ter esperança no invisível, não ia ter solidão. O futuro é interrompido pelo silencio da cama vizinha cheia de fios de cabelo que se movem em marolinhas suaves, ignorantes do boa noite especial que recebia do pai. No dia seguinte a mãe, depois de não conseguir convencer que fora apenas impressão, ficou dias sem dirigir a palavra a filha que teve a previsão substituída pela prevenção. Classe gramatical : Adjetivo. Possui 11 letras. Possui as vogais: a e i o. Possui as consoantes: g l r v. Irrevocável. irrefutável inesgotável irrecusável inseparável indesejável impermeável indubitável confortável intolerável inaceitável inabordável irrealizável adaptável inegável provável Classe gramatical: Adjetivo Possui 11 letras Possui as vogais: a e i Possui as consoantes: l p r v. irremediável. irrecusável irrefutável inabordável abominável saudável insuportável estável inviolável mutável
Eu comprei a minha tesoura, a minha cola, o meu papel, os meus hidrocores, a minha caixa de lápis de cor de vinte quatro cores e liquipaper. A minha roupa foi eu que lavei, minha cama fui eu que arrumei, meu sapato fui eu que amarrei! Eu nunca te pedi nada, eu nunca peguei nada seu, eu não preciso de você! Não fui eu quem perdeu sua borracha!

- Mãe? Que profissão quem que ajuda as pessoas tem?
- Como assim?
- Quem ajuda as pessoas pra elas não ficarem tristes?
- Ah... O psicólogo, acho...
- É? Então eu quero ser isso quando eu crescer!
- Psicóloga?
- Não. Desentrestecedora.

As crianças lá de casa são mais novas. As crianças lá de casa são seis, contando comigo. Os meninos limpam o jardim, as meninas limpam a casa. As crianças lá de casa vão à escola e a igreja. A escola é do papai. Mesmo. A igreja não é toda da mamãe, só o coral. As crianças lá de casa gostam do natal, mas não de aniversario. As crianças lá de casa têm medo de bater com a cabeça na parede, mas não tem medo do chão. Farpa. As bicicletas rompem as paredes da casinha. Tem terra no tapete. Os meninos limpam o jardim e ficam na pracinha. As meninas vão dormir cedo que amanhã tem aula de piano. Eu não vou que eu não sou mais criança e tem terra pra tirar do tapete.


- Cala a boca.
- Por quê? Você é um mentiroso, um falso, um grosso! Você se acha dono da verdade, mas não vê um palmo a sua frente!
- Cala a boca...
- Por quê? Você não manda mais em mim e eu não sou a mamãe! Eu não sou ninguém! Não sou ninguém aqui perto de você! Porque você asfixia...
- Ca-la a bo-ca.
- Por quê? O quê? Me diz! Me diz! Fala pra mim! Porque eu não entendo! Eu não sei! Eu não sei que cor, que fato, que sabor, que dor, que nota, que tom, que força, que equação, pronome, lei, não sei qual piano, estética, ética! ...eu não passei no vestibular, eu não parei de chorar,eu aprendi a fumar, a me mastubar, a duvidar...
- Cala a boca!
- Por quê? Eu não preciso do que nunca tive.

Depois do táxi:

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Gosto de todas as nossas discussões. Gosto de ver nossos olhos e ouvidos abertos, tentando compreender o que, em muitos momentos, ainda não tem forma. Gosto de pensar ao lado, articular, debater. Gosto de sentar à mesa, mesmo que imaginária, para repensar nossa organização familiar/trabalho. Gosto de vê-los se expondo e, com isso, me expor também. Eu não sei o rumo, não sei para onde vamos...estou perdido assim como vocês. No meio do meu caos, cavo buracos. Intensifico um olhar, testo outros, busco renovar sempre a minha conduta para que eu não me prenda em uma só certeza. Gosto de me ver tentando, ou seja, em movimento. Perdi o mapa, o manual de instruções, a cartilha, a bula, a receita, o comofás... Perdi e, na verdade, não sei se quero enocontrar. Sei que quero encontrar vocês e, a cada dia, sair vitorioso da sala de ensaio. Buscamos entender melhor o outro quando olhamos para nós mesmos, nos revisitamos. Gosto quando sentamos em roda, abrimos o verbo e depois, se for preciso, pedimos desculpas. Gosto quando está claro e não escuro. Mas mesmo com tanto gosto, ainda não sei. Perdi o discernimento, a conduta, a classe, o manual de boas maneiras... em CASA nos comportamos como quisermos. Afinal, somos nós que ditamos as regras. As novas regras. Mas e que regras são essas? Eu também não sei. Não sei da tv, do interesse pelo seriado, pela pipoca ou pela janela nova. Só sei do que dizem para mim em aberto ou em confissão. Só sei do que se extende de meu corpo e que busca atravessar o de vocês. Sei de minha vontade e da vontade que sinto quando estamos juntos, todos. Gosto de pensar no futuro, de ver a CASA prontas, mas ainda é cedo. Talvez. A maneira que encontrei para me organizar foi pensar nos tijolos, no processo de montagem deles, em seus variados encaixes, pesos e medidas. Fico mudando a ordem, buscando diferentes combinações, fico pensando assim, assado, cru...Fico tentando. Gosto de vê-los querendo viajar, tramando, no melhor sentido da palavra, formas e lutando contra a falta de dinheiro. Em algum lugar isso me motiva, divido. Gosto também de quando vamos embora em silêncio e depois pensamos que muitas outras coisas deveriam ter sido ditas...Gosto de saber que depois da quinta tem a sexta e que depois tem o sabádo e que depois tem o domingo e que depois tem mais uma terça e assim seguimos... Gosto. Escrevo para me entender melhor, entender o espaço que estamos buscando e, aos poucos, construindo. Escrevo para ficar lúcido, para me lembrar de apagar as luzes e dormir. Gosto quando nos apaixonamos de maneiras diferentes e conseguimos encontrar beleza dentro disso. Gosto das diferenças..aliás, amo. Gosto deste processo que dará origem a um espetáculo que ainda não sabemos qual é e isso não me apavora. Gosto também desse lugar, da experimentação sem uma cobrança maior, gosto de tentar traduzir em movimento o que meses atrás defendi em longas páginas escritas.

o meu cinzeiro abarrotado.
a minha cabeça que não cessa.
o meu tapete colorido.
as minhas mãos e pernas cansadas.
o meu bafo.
a minha falta de sono.
a minha vontade que pulsa
em me reencontrar.
comigo e com vcs.

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Resto do verde na casa de domingo.

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